Velho Profeta


Enquanto as moscas pousam em suas feridas, ele sobrevive da compaixão alheia. Era tido como um grande poeta, agora chamam-no de velho profeta.
De suas belas e sinceras palavras, nada sobrou, nem reconhecimento, nem família, nem alegria, nem sequer seus sonhos. Todos partiram sem deixar rastro. Nem mais lembra seu nome. Diariamente, quando é tomado pela fome, um comerciante da região oferece-lhe um prato de comida e água. Sim, existem pessoas boas.
E o velho profeta não sabe como demonstrar sua imensa gratidão por mantê-lo vivo. Dá-lhe apenas seu sorriso amarelo, numa face tomada pela desilusão.
Dizem que era um grande escritor, de família rica. Era casado e tinha alguns filhos, não se sabe quantos. Viajava pelos mais fantásticos lugares, promovendo seus livros. Um dia, ao chegar em casa, encontra sua mulher à cama com seu irmão. Seu próprio irmão. Sua mulher e seu irmão… Então dizem que a dor foi tão forte, que deixou tudo para trás. Tudo que ele escrevia e sonhava, nada mais fazia sentido.
Foi aí que ele supostamente enlouqueceu, e até hoje sobrevive pelas ruas do Centro, esperando pela morte súbita… ou ser queimado, como de vez em quando acontece com alguns companheiros seus.

“Morre outro mendigo que teve o corpo queimado no Centro do Rio”

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