A Velha Casa

Todos os dias Gabriel esperava no portão. Era um garotinho de 4 anos, que passava a tarde na escola e nos dias de sol esperava no portão seu pai chegar do trabalho. Nos dias de chuva, era da varanda que ele esperava… mas sempre preferiu o portão da velha casa. No quintal havia uma tamarineira, tão antiga quanto a casa, que lhe servia de sombra e companhia… até seu pai regressar do trabalho.

Quando o pai voltava, cansado, tentava dar alguma atenção ao filho. Como foi na escola? O que aprendeu? Até começar a discussão com a esposa. É certo que todos os casais têm problemas… mas os pais de Gabriel não deixam passar um dia sequer sem uma discussão. Por que demorou? Por que não trouxe o que pedi? Que cheiro é esse?

Nos dias seguintes às brigas, alguma trégua. O pai saía para o escritório, a mãe preferia trabalhar em casa e Gabriel ia para a escola. E era a rotina: quando ele chegava, era certo tomar seu banho para esperar seu pai. Até o dia que ele esperou demais. Faltava pouco mais de uma semana para completar seus 5 anos. E seu pai não voltou mais para casa. Mesmo assim, Gabriel esperava… e continuava esperando todos os dias. Em vão, claro.

Depois de alguns meses, com alguns problemas financeiros, sua mãe e ele mudaram-se para uma casa um pouco menor. Não era muito distante da velha casa. E… sempre que o garoto voltava da escola, passava em frente à casa e sempre esperava mais um pouco. Ainda havia alguma esperança.

Passados alguns anos, o agora universitário Gabriel, havia abandonado o hábito infantil. Um sonho que ficou para trás. Já dirigia seu carro e sempre saía com os amigos e a namorada de carro. Era aniversário de um colega seu, que tinha uns 2 anos a mais que ele, e foram todos da turma para a festa, na casa do aniversariante. Com o endereço em mãos, seguiu o carro cheio.
E qual não foi a surpresa, ao chegar ao destino… e deparar com a velha casa? Poucas lembranças boas vieram à mente, não conseguia esquecer o sumiço do pai. Mas ele escondia a tristeza com um sorriso… preocupar os colegas pra quê? Ao tocar a campainha, um senhor abre a porta. Um rosto conhecido… uma voz conhecida: – Gabriel? Sou eu, seu pai.

Sem reação, pegou o carro e foi para casa. Não conseguindo esconder a surpresa, sua mãe resolveu contar toda a verdade. O pai tinha uma amante desde antes do casamento, quando ainda eram noivos, e a mãe de Gabriel descobriu isso cerca de 3 anos antes dele partir. E foram 3 longos anos tentando consertar, tentando manter o casamento, em prol do menino. Até o dia em que ele contou que tinha um filho com essa outra mulher. Foi a gota d’água. Não havia perdão. Finalmente Gabriel entendeu porque não havia um dia de paz naquela casa. O dia em que seu pai não voltou, foi porque ele mudou-se para a casa da amante. E construiu outro lar. Passados 5 anos, o pai voltou à velha casa com sua nova família.

E naquele dia que seria de festa, Gabriel descobriu que seu colega Renato era, na verdade, seu irmão. No domingo seguinte, voltou à velha casa. Foi conversar com Renato e seu pai. Precisava esclarecer algumas coisas. Reparou que a tamarineira ainda servia de sombra para quem quisesse esperar por alguém. Mas depois de tudo, Gabriel só esperava uma coisa: aprender a perdoar.

O título acabou virando este por eu acreditar que a Velha Casa era quase um personagem. Então fiz uma homenagem ao Daniel, que carrega em seu blog o título homônimo e escreve palavras que merecem ser lidas.

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