Altos e baixos da minha relação [Parte 2]

[Essa é a continuação; se você não leu a primeira parte, basta descer um pouco o texto até chegar lá.]

– Vamos até a sala?

– Anran.

Sentei ao lado dela. Ela e sua tristeza apoiavam uma das almofadas sobre as pernas. Parecia estar com vergonha de mim.

– Patrícia… eu sei que aconteceu alguma coisa pra você estar assim. Fica calma… fala devagar.

– Antes que você comece a criticar… dar os mesmos conselhos: Desculpa, eu errei. Errei de novo, de maneira babaca. Dessa vez não foi com você. Mas foi o mesmo erro. Ele era um cavalheiro e gostava muito mais de mim do que eu dele. Ele morava com o irmão mais novo, deve ter uns 17. E eu trepei com o irmão dele… No sofá da casa deles…

– Acho que eu nem preciso ouvir esses detalhes…

– Porra, Gui. Deixa eu acabar de falar. Ele chegou na hora que estava gozando… Levantei correndo, puxei o vestido que estava no chão e consegui vestir numa velocidade incrível. Eu só queria sair correndo dali. Quando estava em direção à porta, ele parou na minha frente… Mandou eu parar… Eu esperava uma reação violenta dele, afinal ele é meio esquentadinho… Mas só olhou nos meus olhos e perguntou… – Por que você fez isso?
Aquela pergunta… foi um tapa na cara. Aliás, doeu muito mais que um tapa…

– Hum… e o que eu tenho com isso?

– Você tem tudo a ver, Guilherme! Tudo a ver. Eu estava namorando com o Marco porque me fazia lembrar de você. Os dois me fazem… me faziam rir tanto. Sabia que ele também é flamenguista? Então… eu estava tentando preencher o vazio que eu sei… eu mesma criei…

– Marco Antonio? Meu colega de faculdade?

– Não sei… ele é analista de RH. Será que vocês estudaram juntos?

– Bem, se for o Marco Antonio que estou pensando, nós até moramos juntos numa república.

– Ele tem o cabelo meio enrolado, olhos castanhos… ele adora escrever!

– Puta que pariu. Há tanto tempo eu não vejo o Marco e você trepando com ele… Isso foi quando?

– Ontem à tarde. Então eu fui pra casa. Me deu a louca. Tomei banho, coloquei esse vestido preto aqui, me arrumei toda… e fui ver aquela boate nova ali em Copa.

– Nem sei qual é…

– Entrei, pedi uma long neck. Depois mais outras duas. Aí fui dançar. Tocava umas músicas que eu nem conhecia, mas fiquei dançando sozinha um tempão. De repente eu comecei a me sentir incomodada, sabe? Até que uma hora derramaram alguma bebida no meu ombro… nem sei o que era.
Fui ao banheiro tentar tirar aquele cheiro. Quando me olhei no espelho, me senti tão pequena e ridícula… Saí correndo dali de dentro.

– Você nem tentou dirigir depois né?

– Eu peguei o carro. Quando parei no sinal… dois marginais filhos da puta me fizeram descer do carro. Eles não queriam mais nada, só carro. Eu até achava que aquelas armas eram de brinquedo… mas estava tão assustada…

– Caralho!

– Eu peguei o celular pra ligar pra alguém… eu estava desesperada! A bateria tinha acabado. Por sorte, um táxi estava passando e me trouxe até aqui.

– E por que aqui?

– Não sei. Eu acho que… eu não tenho mais ninguém. Meus amigos… não são tão amigos assim pra eu incomodar a essa hora. Você que sempre foi meu porto seguro… tinha quase certeza que ia me receber com aquela compreensão e bondade de sempre, sabe?

E naquele instante… eu não sabia mais o que fazer. Eu que sempre que fui de dar conselhos… que palavras de conforto eu poderia usar? Será que devia mesmo? Ela me traiu… ela me traiu, porra!

– O que você quer que eu diga?

– Eu só queria te dizer que… eu descobri que amo você. Eu que não sabia o que era amor, você me mostrou. E amo você até hoje, parece que mais ainda do que quando estávamos juntos. Porque tudo que faço direito, eu só queria mostrar pra você. E só pra você. Ver esse seus olhos brilhando de orgulho da namorada inteligente… E de vez em quando me pego chorando baixinho por aí. De arrependimento, sabe? E ontem foi a gota d’água. Percebi que quero mudar minha vida, minha história. E só queria que você ainda fizesse parte dela. Só você… o tempo que Deus permitir. E estou aqui mais arrependida do que nunca. Não dos erros que cometi na vida… mas só por ter machucado você.

E ela pegou minha mão e começou a apertar devagarinho meus dedos.

– Gui, me perdoa?

– Te perdoar? Você já pediu perdão a si mesma? Porque você não machucou só a mim. Já viu o mal que está fazendo a si mesma? Olha só a humilhação… a pessoa que você traiu agora abre te abre a porta. Eu que sempre te amei e respeitei, tomei uma porrada daquelas… Cara, eu sei que não merecia isso. Não mesmo!

– Eu também sei, mas…

– Mas nada, Patrícia. Eu sinceramente não sei se te perdôo. Eu quero perdoar e também não quero. É, eu ainda amo você, mas não consigo aceitar isso. Eu sempre estava preparado pra tudo, aceitava tudo, até umas coisas inaceitáveis, como fumar dentro do quarto… Mas porra… traição é uma coisa que não estou nem estarei preparado pra aceitar. Nunca!

– É… eu entendo… eu acho que também não sei se me perdoaria. Foi uma burrice muito grande essa que eu fiz. E eu tô tentando aprender… só queria que você aceitasse minhas desculpas.

– Você não acha que é exigir muito de mim, não? Depois de tudo…

– Tem razão. Bem o dia está amanhecendo. Acho melhor ir embora…

– É.

Sei que fui seco, não disse tudo o que queria dizer. Mas eu também não sabia exatamente o que dizer. Então preferi a abstenção. Chamei um táxi pra ela. Quando o motorista chegou, acompanhei até a porta, ela me deu um beijo daqueles barulhentos no rosto. E partiu. Eu desejava que ela não tivesse saído. Mas também preferia que ela não tivesse ficado.

[Continua…]

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