Amor, eterno amor

[Conteúdo impróprio para menores]

Norma era casada havia sete anos com Marcelo. Do enlace, nasceu Lucas, então com seis anos, na época do que aconteceu o que vos relato a seguir.

Era psicóloga e sócia de uma Consultora de recursos humanos, fazendo recrutamento e seleção de estagiários. Como quase toda mulher moderna, tinha lá sua jornada dupla: profissional da Psicologia e do Lar. Marcelo era economista formado, mas trabalhava como gerente da Caixa Econômica Federal. Àquela idade, o filho do casal já sabia ler e escrever de maneira que podia cursar a 1ª série fundamental.

Marcelo nunca foi um romântico. Claro que nem todos os românticos amam e nem todos que amam são, de fato, românticos. Mas Dona Luiza sempre soube que ele não tinha pela filha o amor que tinha Luciano, o namorado de adolescência. Norma e o ex-namorado cresceram juntos, estudaram juntos e moravam em bairros vizinhos. Quando ela fez 17 e ele 18 anos, ambos passaram no vestibular. Qual não foi a surpresa ao descobrir que ela não optou pela mesma instituição que ele? O namoro seguiu. Dois anos mais tarde, num show realizado na faculdade dele, Norma disse a Luciano que ia ao banheiro. A caminho, um rapaz desconhecido deu-lhe um beijo no pescoço. O mais interessante é que ela não se mostrou indignada, como a maioria das mulheres comprometidas reagiria. Tampouco deu muita atenção, apenas um meio-sorriso. Entrou no banheiro e lavou o rosto. Havia bebido um pouco mais que o eventual. Secou a testa, passou batom e voltou em direção ao namorado. O desconhecido a aguardava na porta. Tomou um grande susto. Ele sorriu e entregou-lhe um pedacinho de papel, onde lia-se um número de telefone e a letra M. Beijou-lhe o rosto e, colado ao seu ouvido, “Marcelo, prazer.” Antes dela dizer seu nome, ele já havia sumido na multidão.

Luciano não viu nada, estava entretido com Os Paralamas do Sucesso, que naquele instante tocava um dos seus maiores sucessos, “Meu erro”. Norma puxou-o pelo braço e pediu-lhe que fossem embora. Muito contrariado, ele aceitou.
Ele a levou até a frente de sua casa, onde Dona Luiza obviamente aguardava acordada sua chegada, como se sua filha fosse ainda uma criança. Beijou-a com o ardor costumeiro, ela cedeu por instantes, mas afastou-se, proferindo um frio “Boa noite” e entrou em casa.

Passaram-se três dias e Norma não retornava as ligações do namorado. Preocupado, resolveu ir até lá. Tocou a campainha duas vezes. Dona Luiza fora fazer compras e quem atendeu foi um rapaz que nunca tinha visto antes. Estava sem camisa, descalço e vestia apenas uma calça jeans com o zíper aberto. Atrás dele, Norma, envolta num lençol, veio correndo ver quem a incomodava àquela hora da manhã. Luciano puxou de volta a maçaneta, bateu a porta com força e foi embora contendo as lágrimas.

Quatro meses mais tarde, Marcelo e Norma já ostentavam a aliança na mão esquerda. Não houve lua-de-mel, ambos precisavam concluir a graduação, o que veio a acontecer dois anos depois para ela e mais um ano para ele.

Aos sete anos de casamento, Norma já colhia suas frutas podres. Ela, que foi incapaz de respeitar Luciano, manteve a fidelidade com Marcelo. Um homem frio, grosso e violento. Ela que esperava algum tipo de atenção ao final do dia, muitas vezes era presenteada com “boa-noite” e “até amanhã”, como se tivesse casado com o apresentador do telejornal. Até a manhã em que foi ligar para Dona Luiza. Ao pegar o telefone, percebeu que Marcelo estava usando. E foi impossível não ouvir a conversa e descobrir Renata. Com uma voz anasalada e vocabulário paupérrimo, vomitava frases eróticas. Marcelo apenas ria. Ao final da chamada, “te amo”. Foi exatamente o que ele disse. Ela nunca ouviu essas palavras de sua boca.

Aproveitou que Lucas estava na escolinha de futebol, pegou a bolsa e saiu. Pegou um táxi até o Aterro do Flamengo. Pagou mais do que devia. Andando pela calçada com os olhos vermelhos e a cabeça a ponto de explodir, entrou numa cafeteria. Não pediu nada para beber, pegou o Jornal do Brasil pendurado num suporte na parede e pôs se a derramar algumas lágrimas sobre o rosto de algum político corrupto. Com a cabeça baixa, não viu sentar-se à mesa um homem preocupado com ela. Ele segurou sua mão e perguntou se ela estava bem. Ao levantar a cabeça, Norma imediatamente reconheceu Luciano.

Ele enxugou suas lágrimas e abraçaram-se como velhos amigos, que nunca tinham sido magoados um pelo outro. Sem perguntar o que houve, Luciano a levou ao seu apartamento. Ofereceu um café, ela, sentada no sofá, aceitou. Bebeu até a metade e colocou a xícara sobre a mesa-de-centro. Antes que ela pudesse terminar um pedido de desculpas não ensaiado, o ex-namorado selou-lhe os lábios com um beijo. Por um momento ela esqueceu o remorso e retribuiu, envolvendo-lhe com o braço direito. Devagar, ele desabotoou a blusa dela, ela sacou a camiseta dele. Com as mãos entre as pernas dele, Norma abriu o botão da calça e pôs os dedos por dentro de sua cueca. Ele segurou sua mão, tirou o restante da roupa, arrancou-lhe a blusa desabotoada, lambendo seu pescoço. Carregou-a para o quarto, onde sobre a cama, pareciam dois animais famintos. Devoravam-se com mordidas e arranhões penetrantes, que combinavam com altos gritos e gemidos. Um último suspiro encerrou a melhor transa que os dois já tiveram.
Relaxaram sobre a cama e adormeceram. Ao final do dia, quando Norma ainda dormia, Luciano foi à cozinha buscar duas facas. Uma, cravou-lhe no peito. Enquanto o sangue jorrava e ela sem conseguir falar, pôde sentir ainda a segunda faca subindo das suas pernas até encontrar a primeira.

Luciano ligou para a polícia e avisou o que tinha acabado de fazer. Antes de chegarem, teve tempo para fugir. Marcelo, do noticiário, reconheceu o nome da esposa.
No velório, um homem também vestido de preto, porém aparentemente desconhecido da família, aproximou-se do viúvo e pôs-lhe a mão no ombro. Antes que Marcelo pudesse ver seu rosto, Luciano sacou um revólver e deu-lhe um tiro na barriga. De joelhos, ainda teve tempo de ter sua testa também atravessada.

Hoje, sou o único que ainda faz visitas quinzenais a Luciano, no presídio. Nunca poderia imaginar que meu amigo tivesse a mente perturbada de tal maneira. Nas visitas, conheci parte dessa história. Foi com ele que aprendi que a traição abre feridas que nenhum tempo é o bastante para cicatrizar. E que todo amor é eterno, mas às vezes, doentio.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s