Intuição

Eu e Camila tínhamos uma grande amizade. Dessas cúmplices que ocorrem entre pessoas do sexo oposto e que em nenhum momento tenha rolado alguma outra intenção além. Mas se tinha alguma coisa que não concordávamos, era o Leonardo, seu ex-namorado. Eu sempre fui muito intuitivo. E olhava pra ele… não me inspirava confiança, por mais simpático que ele fosse comigo. Mas ela gostava dele, eu via nos olhos dela, como brilhavam cada vez que ele ligava para o celular dela. E foi numa vez dessas que o celular dela tocou com o número dele. Era dona Carmen, mãe dele. Leonardo havia sofrido uma colisão de carro na Perimetral. Sabia que ele tinha batido numa pilastra, só não conhecia a gravidade do acidente. Não sei o motivo, mas comecei a pensar que ele fosse o culpado. Acho que era porque não gostava dele, mesmo sem ele ter me feito nada… até chegarmos lá, constatarmos que estava em coma e dona Carmen contar que um motorista de ônibus fez uma manobra assassina, que alguns dias depois havia lhe tirado 26 anos de vida.

Foi um verdadeiro luto. Ele era muito querido. E eu sofria duas vezes, primeiro por ver minha amiga daquele jeito, depois pelo remorso. E que sentimento ruim é o remorso, esmaga o coração.
O velório estava cheio de ex-colegas. Eu e Camila, junto com minha ex-namorada, o conhecemos numa das choppadas de Odontologia da UFF, onde ele havia se formado um ano antes do acidente. Acabara de montar seu consultório, com ajuda do pai, que também era dentista, do Exército. Era comovente, porém tarde demais para arrependimentos.

E lá se foram quase 2 meses até eu ter notícias dela. Foi preciso eu ir até o apartamento dela e insistir na campainha, depois de tantas tentativas fracassadas de fazer com que ela atendesse o telefone. Era um estado de calamidade pública. Ela aparentava não tomar banho havia dias, o cabelo parecia ter sido embebido em azeite. Enquanto ela tomava banho, eu comecei a recolher as caixas de pizza e garrafas de refrigerante pelo chão da sala.
Depois do banho, vestindo uma camiseta velha da nossa faculdade, sentou-se no sofá, puxou-me pelo braço, segurou minhas mãos e perguntou:

– Você acha que ele está num lugar bom agora?
Eu tentava engolir e não conseguia…
– Com certeza. Ele era uma pessoa muito boa…
– Por que a distância existe? – perguntou ela, com o semblante mais triste que eu já vi em alguém.
– Pra que a gente possa sentir saudade… – respondi sem pestanejar. E eu acreditava mesmo nisso, só não tinha me dado conta ainda.

Então nos abraçamos até cairmos no sono. Acordei de madrugada, peguei um cobertor para ela, ajeitei as almofadas e fui embora sem fazer barulho.

[Continua…]

* PS: Trata-se de ficção. Qualquer semelhança com fatos reais, mera coincidência.

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