Lobão tem razão

Tirei a tarde para adiantar alguns capítulos do meu livro, mas Lobão não deixou. Estava assistindo a alguns vídeos no Youtube com a Marina Silva, candidata que apoio nestas eleições presidenciais e deparei com uma entrevista ao cantor e compositor Lobão, em seu programa “Lobotomia“, transmitido pela MTV. Nunca tive a oportunidade de assisti-lo por inteiro, pois ele passa nos horários mais incovenientes possíveis pra mim.

Eu já cometi a imbecilidade de odiar Lobão. Tudo por causa de uma entrevista ao falecido Jornal do Brasil em que ele criticava a bossa nova. Eu levei para o lado pessoal, tomei as dores de Vinicius de Moraes e tachei Lobão de babaca (para ser gentil). Logo eu, que sempre defendi a liberdade de expressão… Com o tempo, a cabeça vai processando melhor as ideias e eu acabei por digerir aquilo. Ao assistir aos programas, o assunto voltou à tona e cá estou para exprimir algumas ideias.

Com a diminuição (mas não o fim) da censura de Estado, outros tipos de censura vem sendo praticados. É a maldita censura velada. No programa em que ele entrevista Tico Santa Cruz (vocalista dos Detonautas), Lobão tocou num assunto que eu já processava há algum tempo. Num país com tanta desigualdade e problemas sociais, os brasileiros parecem querer mostrar aos gringos que aqui é tudo “divino e maravilhoso”. Quero deixar claro que adoro a bossa nova e a música popular brasileira, de forma geral, mas por favor… nem tudo é um do “Samba do Avião”. No país da culpa católica, o povo vive na defensiva. Fazer uma crítica mais dura, principalmente se vinda de algum gringo, já é motivo para o cara virar uma “persona non grata“. Não pode um estrangeiro falar da prostituição no Brasil nem da violência gerada pelo tráfico de drogas. Usar da ironia e do humor, então, é pedir para ser odiado. Robin Williams, outrora admirado por seus papeis no cinema, é um dos inimigos públicos. Cada caso é um caso, há de ser discutido. Algumas afirmações são de “gosto duvidoso”, mas sejamos razoáveis.

Pior que isso, é a classe artística, grande formadora de opinião, ser omissa. É uma pena que seja mais regra que exceção. Sei que enquanto há exceções, há esperança. Mas é impressionante a reação popular ou de camadas da sociedade diante de algumas “aparições”. Lembro-me quando houve uma mobilização no Twitter, contra uma grande rádio. Tico Santa Cruz foi proibido de tocar na Rádio Mix FM de São Paulo simplesmente porque o diretor da mesma acha que ele fala demais. Eu já odiei Lobão porque ele “fala demais”. Caetano Veloso é um velho gagá porque critica Lula, o presidente mais carismático desde Getúlio Vargas… perdi a conta das vezes em que ele foi massacrado por isso. Esses casos podem ser contados nos dedos, porque, no geral, o conforto do silêncio é mais conveniente.

Opinião é tabu. Defender a legalização da maconha é ser maconheiro. Há quem não goste do comportamento de grupos gays, de suas mobilizações, em geral. Há quem não goste de como muitos evangélicos tentam converter e fazer lavagens cerebrais. Mas isso não define os insatisfeitos como homofóbicos ou intolerantes. Uma coisa é você é balancear os efeitos da legalização, outra é sentir os efeitos do uso.  Uma coisa é não gostar de  algumas manifestações de movimentos homossexuais, outra é ofender, espancar e até matar. Não gostar das abordagens não é o mesmo que ignorá-las ou desrespeitá-las. A própria palavra “gostar” leva a várias interpretações, mas há de se deixar claro que a diferença entre “não gostar” e “odiar” não é nem um pouco tênue. Tênue é a visão que as pessoas tem do que é imoral, amoral e mais, o que é antiético (bom assunto para um post futuro). É tudo muito radical, muito extremista. É uma síndrome de moralidade forçada, só é aceito o politicamente correto. O humor não é mais aceitável. Ninguém quer debater, é muito mais fácil apenas renegar e marginalizar.

Quero fazer um pedido: opinem. Você que é músico, pode acontecer o mesmo que aconteceu com Tico – ser “banido” de uma rádio – mas elogie, critique, diga o que pensa! Eu posso até não concordar com o que você diz, mas vou respeitar por ter dito. No final, Lobão tem razão.

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11 pensamentos sobre “Lobão tem razão

  1. Muito boa a sua reflexão, Marco.. em especial quando vc diz: “Com o tempo, a cabeça vai processando melhor as ideias”.
    A minha maior insatisfação ainda é pela falta de unidade da raça humana.. 😉
    Beijo.

  2. Parabéns pelo texto. E fiquei feliz por você ter mudado de opinião em relação ao Lobão, que é um dos caras mais inteligentes desse Brasil. Você já escutou a música “me chama”? Pois é, isso é Lobão! Um abraço e mais uma vez parabéns.

    • Neusa,

      Claro que conheço ‘Me chama’. Como eu disse, na época foi coisa pessoal. Mas nunca deixei de escutar e curtir a obra dele. Eu sempre separei o pessoal do profissional nas artes, porque se fosse assim não ia sobrar muito “admirável” não…

      Obrigado pelos parabéns!

  3. Olá Marco Antonio.
    Segui o site do Lobão até chegar aqui no seu blog e fiquei muito satisfeito de saber que nesse país do “politicamente correto”, ainda tem alguem que ouse ser “incorreto”, que ouse emitir uma opinião sincera e bem construída. Aproveito pra te convidar a dar uma conferida no meu trabalho musical, pois, o que tentamos com nossa obra, é fazer uma crítica a esse “politicamente correto” em que as pessoas preferem ficar em cima do muro, fazendo musiquinhas choramingosas com medo de cutucar o sistema brasileiro, que agora já é global.
    Enfim… aguardo a sua visita e seus comentários sobre o nosso trabalho.
    Parabéns pelo post!
    Abs.

  4. “…porque Narciso acha ‘feio’ o que não é espelho…”Achei graça de você, sabe? Aquela coisa de contesto mas admiro. Nossa! como a gente luta contra nossos próprios amores, né? Você (eu, todo mundo) tem disso: ama (qualquer amor) mas fica buscando como negar……hehehe…mas o amor sempre vence (espero). Difícil não amar A Voz – gutural, minha preferida – do Lobão. Mais sua inteligência vinda do cyberespaço…amo as composições dele. Fico brincando de interpretá-las…..hahahahaha…divirto-me!
    Agora…falando sério…com relação a “cortar” artistas cantores/compositores…fala aí: dia desses vi num canal de TV um ‘gigante ‘ programa com/sobre TOM ZÉ . Cara…Caramba ‘meo’ (como dizem os jovens de hoje)! A turma da bossa-nova não foi nada ética com o cara!!!!!!! Puxa! Eu que amava tanto os bossanovistas e as músicas deles!
    Sabe, que tal a gente ( artistas -TODOS- e todos os brasileiros começarem a falar mais de ética em todos os espaços, hein? Tudo o mais viria por consequência. Principalmente agora que a liberdade de expressão ‘parece’ que se firmou em nosso país.
    Senti no teu artigo um viés político. Acho que dá uma mistura-fina isso: arte+política+ética.
    …me chama…me chama…me chamaaaaaaaaaaa
    Tenho dito!

  5. Uau!
    Meu amigo Marco Antonio num texto tão preciso e no site do meu ídolo, o maior roqueiro do Brasil, o grande Lobo.
    Caramba!!! Tô muito orgulhoso e feliz. Valeu, Marco! Valeu demais, Lobo!

  6. Pingback: Os números de 2010 « Marco S/A

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