Brasil, religião e casamento gay

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Pedro o Eremita mostra o caminho de Jerusalém aos cruzados (iluminura francesa, c.1270)

Primeiro, gostaria de esclarecer a expressão “Estado laico”. O termo “laico” vem do latim e sua definição mais próxima com o tema abordado seria “que não sofre influência ou controle por parte da igreja”.

Por muitos séculos, Estado e religião se confundiam. A Igreja Católica, na era medieval era a grande força dos feudos, com autoridade superior à dos monarcas. Quem nunca ouviu falar das grandes Cruzadas? No Brasil, a Constituição Imperial de 1824 instituía a mesma como a religião oficial do Império.

A atual Constituição (1988) não institui uma religião oficial, dá garantias à liberdade de crenças e reconhece o Brasil como um estado laico. No entanto, uma coisa chama atenção, seu preâmbulo:

“Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte, para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte Constituição da República Federativa do Brasil”.

Como assim, “sob a proteção de Deus”? E a liberdade de crenças? Isso é uma violação à garantia da própria Carta, tornando-a contraditória. Um ateu não quer a proteção de Deus, porque acredita que Ele não existe. O mesmo direito que os cristãos tem de rogar a proteção divina, os ateus tem de negar sua existência, e a Lei Maior acaba pendendo para o lado religioso.

Em novembro de 2008, o presidente Lula encontrou-se com o Papa Bento XVI para assinar um acordo entre Vaticano e governo brasileiro. O objetivo: “regulamentar o Estatuto Jurídico da Igreja Católica do Brasil”. Entre tantos artigos, muitos direitos já garantidos pela nossa Carta Magna, como a legitimidade do casamento religioso.

A Igreja Católica é claramente contrária à união entre pessoas de mesmo sexo. Não quero entrar nesse mérito, religião é uma escolha tal como um namorado ou namorada. Infelizmente, durante minha infância, achava relacionamentos homossexuais um absurdo, influenciado pela própria religião (católica) em que fui criado. As coisas mudam… Não sou ateu, ainda acredito na Força Maior que chamo de Deus, mas sem estar preso a dogmas religosos. Não sou homossexual. Os preconceituosos nojentos sempre taxam quem luta por essa igualdade de direitos como gays. Sou totalmente a favor da união civil entre homossexuais, com equidade de direitos em relação aos casamentos entre pessoas de sexos distintos. Se a religião não permite, a mim não cabe contestar. Mas o Estado não reconhecer, isso sim, é um verdadeiro absurdo. Casamento gay não é, necessariamente, casamento religoso. Será que a influência da igreja é ainda tão grande a ponto de não mudarmos essa situação? Será que ainda estamos vivendo em feudos?

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4 pensamentos sobre “Brasil, religião e casamento gay

  1. Fiquei com vontade de matar o Luiz Inácio quando ele assinou esse acordo.
    Mas passou… Rá!

    Sério, agora: acho que o que pega aí é a palavra ‘casamento’, que a galera é meio bitolada, né? Falou em casamento lembra de véu, grinalda, padre, marcha nupcial e um bando de moçoilas casadoiras se estapeando por um buquê.

    Aos poucos (e bota pouco nisso), alguns juízes vêm aceitando a união civil entre homoafetivos, mas é uma novela pra conseguir. Não sei pra quê tanta palhaçada, gente. União civil é contrato e nada mais que isso. A gente vai lá e assina um papel dizendo que a partir da data x passamos a viver juntos e estabelecemos os direitos de cada um, e de ambos. (plano de saúde, pensão, herança, separação de bens, união de bens… ou seja, cláusulas de um contrato qualquer). O povo enfeita demais e enche muito o saco.

    Eu sou agnóstica. Odeio esse povo religioso achando que pode dizer o que eu devo ou não fazer. ora pois, vou ter que seguir uma regra de um deus pelo qual eu não sei da existência?

    Tá na hora desse Estado comprar essa briga, né?

    No mais, quer saber, colocam a culpa no deus deles, mas é preconceito mesmo. É pequenez.

    Um dia a gente vai viver em um mundo livre dessa gente hipócrita!

    Tomara!

  2. Essa é a grande questão. Casamento religioso é uma coisa. O que defendo é apenas casamento, já que não posso interferir na religião. Se um casal homossexual se ama, dorme junto e planeja sua vida a dois, nada mais justo que chamar isso de casamento. Tem que quebrar esse paradigma. O fato é que muitos juízes já aceitam a união civil, há jurisprudência e tudo mais. Mas não há uma legislação específica, então toda vez que há um imbróglio, tem que recorrer ao Juízo.

  3. Olá, Marco!

    Não tenho nenhuma religião, mas creio em uma forma maior. Acho que no Brasil ainda não nos liberamos do estigma da religião católica.

    Acho que o governo precisa proteger os homossexuais e pelo menos para mim, acho que não me compete dizer se aceito ou não. Somos brasileiros, independente de nossa opção sexual e como brasileiros devemos ser todos protegidos pelo governo, sejamos nós o que formos.

    Beijos!

  4. Pingback: Os números de 2010 « Marco S/A

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