Aborto e o direito à vida

 

1997-09-17

Capa da VEJA em setembro de 97

 

Várias religiões consideram que a vida tem início a partir da concepção. Independente de fé, também creio nisso. Sempre fui pessoalmente contra o aborto e, talvez, sempre serei. Digo talvez porque sou um ser humano em constante mutação. Não que eu tenha personalidade maleável, sou um observador desde sempre e tiro conclusões a partir do que observo.

Faltando menos de um mês para o fim das eleições, essa discussão foi polarizada. Os dois presidenciáveis travam uma batalha moral pelos votos dos religiosos. Católicos e evangélicos são veementemente contra. Religião até se discute: entre amigos, em mesas de bar, em universidades… mas quando se trata de dogmas, representantes das igrejas nunca estão abertos ao tema.

José Serra, candidato da oposição, é declaradamente contra a legalização do aborto. Ele demonstra que, enquanto presidente, não modificaria a legislação. Atitude que julgo covarde e incoerente. Uma vez que foi ministro da saúde no governo FHC, deveria, mais do que ninguém, entender que, acima de questões morais e religiosas, trata-se de uma questão de saúde pública. Dilma Rousseff, segundo seu partido, não tem uma posição clara. O PT, partido da presidenciável, aprovou em 2007, durante o 3º Congresso da legenda, uma resolução que defende a legalização do aborto. Em 2009, foi divulgado o PNDH-3 (Plano Nacional dos Direitos Humanos), que também defende a legalização do aborto e foi execrado por diversos setores da sociedade, principalmente entre os cristãos.

Embora eu defenda que a discussão não deveria ter sido levantada neste momento, o assunto, lamentavelmente, tomou uma dimensão tão grande que os candidatos, que há uma imposição aos candidatos que tomem partido de uma das causas – a favor ou contra a legalização do aborto.

Como não sou candidato a nada, digo: sou contra o aborto, mas a fazor da legalização. Aqueles contrários à legalização recorrem ao “direito à vida”, presente na maioria das “leis” religiosas e em nossa Carta Magna. A interpretação “ao pé da letra” de questões cruciais como essa levam ao ódio e à intolerância históricos. O catolicismo é contra métodos contraconceptivos e defende “sexo apenas depois do casamento”. Isso já foi superado pela maioria da população e até os menos “esclarecidos” conhecem e tem acesso a tais métodos. Em enquete publicada no Portal G1, com 17.906 votos, 78% declaram-se contra o projeto que prevê a legalização do aborto. Apenas 22% é a favor. Ou seja, o candidato que se declara contra, tem uma grande parcela da população concordando com ele. Até aquele que não se manifesta tem uma posição mais confortável do que qualquer que se declare a favor: dos males, o menor. O direito à vida, na minha concepção, é um conceito bem mais amplo. O bebê, que não tem culpa de nada, tem direito ao amor, a uma estabilidade emocional e familiar, a uma educação e saúde de qualidade, coisas que muitas das praticantes do aborto são totalmente incapazes de oferecer e, por isso, adotam o método. Todos esses direitos estão inclusos no direito à vida, se não, seria apenas “sobrevida”. E aquelas que não tem acesso ao aborto seguro nas caras clínicas ou não o fazem pela ilegalidade (ou vergonha), recorrem a métodos que quase sempre levam a morte.

Infelizmente, esse debate ao redor da legalização (ou não) do aborto, desvia o foco de assuntos bem mais importantes e pertinentes, como preservação ambiental, desenvolvimento sustentável, saúde e qualidade da educação, por exemplo, ligados diretamente ao futuro(a) presidente do país. Com isso, morre a ideia do “voto consciente”, as pessoas decidindo seu voto com base apenas em opinião sobre um único assunto, ignorando propostas. A discussão e legalização (ou não) cabe muito mais ao Poder Legislativo do que ao Executivo. Por que os eleitores não cobraram de seus candidatos à Câmara e ao Senado com tanta importância como cobram dos presidenciáveis? É “tanta mentira, tanta força bruta”…

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5 pensamentos sobre “Aborto e o direito à vida

  1. Excelente o texto Marco, concordo plenamente contigo e te digo mais, não conseguiria me expressar tão bem assim quanto tu, em relação à política e assuntos afins!
    Parabéns!

  2. José Serra, candidato da oposição, é declaradamente contra a legalização do aborto. Ele demonstra que, enquanto presidente, não modificaria a legislação. (…). Uma vez que foi ministro da saúde no governo FHC, deveria, mais do que ninguém, entender que, acima de questões morais e religiosas, trata-se de uma questão de saúde pública.

    Mas normatizou a prática pelo SUS (nos dois casos em que a lei permite a prática) quando Ministro, e merece palmas por isso; apesar de eu achar hipocrisia ser à favor do aborto em caso de estupro ou de gestação de risco para a mãe, e contra em todos os outros casos. Ou aborto é ‘assassinato de criancinha inocente” ou não é. Eu acho que não é.

    Um Presidente da República não deve nunca se pautar por valores pessoais, e por isso subjetivos, para tratar as questões do país. Ele precisa ter um olhar prático acerca dos problemas das pessoas. FHC, por exemplo, já deu ‘n’ declarações que é à favor da liberação da maconha, mas nunca sequer colocou o assunto em pauta enquanto foi Presidente. Nunca mandou projeto de lei pra ser votado. Porque uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

    Comeu mosca quem se preocupou se o candidato à presidência (vermelho, verde ou azul) era ou não à favor da descriminalização do aborto. Quem tá muito preocupado com isso tinha mesmo era que prestar atenção nos candidatos à deputado e a senador. São eles que fazem as leis, que as aprovam ou não. “Mas, Ju, o presidente que sanciona!” Claro que sim, presidente ´precisa mandar em alguma coisa nessa bagaça, mas ele não pode votar contra uma decisão do legislativo por conta de questões de foro íntimo. Por que aí, né, pra quê Congresso? Pra quê senado? Pergunta logo pro presidente… Não é assim que as coisas funcionam, ainda bem!

    O grande problema é que a questão, ao invés de ser discutida com a clareza e a importância que merece, ficou mais satanizada, tá mais enfiada que nunca no ambiente religioso, que é de onde tem que sair, já que somos tão diversificados nesse quesito; e hoje vejo, tanto do seu candidato, quanto da minha, uma postura tão surreal que eu já tô achando que a eleição é pra Papa. Quem é mais santo? Quem é mais cristão? Afff… e eu, agnóstica, com cara de panqueca no meio dessa guerra santa que se promoveu no país. Né? Se fosse pra votar por isso, eu seria FHC desde criancinha, né? (ui, isoooola – socoooooooooooorro)

    Dia 28/09 eu escrevi sobre o assunto aborto no meu blog, caso se interesse, dá uma passada por lá.

    Beijos vermelhíssimos pra ti!

  3. Na mosca, Marco. Essa discussão desvia de assuntos mais profundos. Fica no raso. Só na perfumaria. Ninguém leva a sério de verdade. Olhar a coisa com clareza, prática e inteligência seria mais fácil. Mas teria que aprofundar. Começar lááá atrás: ‘Oh, as pessoas fazem sexo! Oh, as pessoas gostam de fazer sexo! Oh, elas não se previnem! Puxa, isso causa alguns problemas!O que fazer? ‘ . Fico numa irritação. Mas aí eu leio seu texto e me alegro: oba, inteligência!

  4. Como disse no comentário anterior, o governo tem o dever de proteger a todos. Nunca precisei pensar em aborto porque tive apenas uma filha e a tive porque quis.

    Não me acho com direito de ser contra ou a favor do aborto. Depende do contexto e da situação em que a mãe está envolvida. Cada mulher deve ter seus motivos e não cabe a mim julgá-los.

    A mim o que mais preocupa são os tantos filhos sem pais que andam por aí e as tantas crianças que são torturadas nos lares. Acho que o governo não toma medidas enérgicas para diminuir o sofrimento destas crianças. Uma criança sofrendo em algum quarto escuro da vida me preocupa muito mais do que o fato de a mulher abortar ou não.

    Beijos!

  5. Pingback: Os números de 2010 « Marco S/A

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