Racismo, Intolerância e conformismo

 

– Esse clima do racismo é totalmente triste. A gente sai do nosso país, vem jogar aqui e acontece isso. Prefiro nem tocar no assunto, para não virar uma bola de neve.

robertocarlos_banana_div_3Essa foi a declaração do jogador Neymar ao canal SporTV, após o amistoso em Londres, contra a Escócia em que um turista alemão atirou uma banana em campo. Nas últimas duas semanas, os laterais brasileiros Marcelo e Roberto Carlos também foram vítimas de manifestações semelhantes, na Espanha e na Rússia, respectivamente.

É claro que isso me entristece. Não apenas por ser descendente de negros, mas por não conseguir enxergar uma lógica para o racismo. Ser negro, pardo, branco, asiático… isso não é uma questão ideológica ou política. Não é uma escolha ou um estilo de vida. É uma questão natural. Quando critico alguém por ser socialista, conservador ou fanático religioso, por exemplo, estou contrariando a escolha. E faço isso com tolerância, sem ofensas. No máximo, com algum humor, por acreditar que esta seja uma ferramenta e tanto para expor a realidade. Para mim, o que é elegível, é discutível. O debate é saudável e ajuda a evoluir.

Repito: ninguém escolhe ser negro ou turco, ou de qualquer outra etnia. Mas escolhe ser racista ou omisso. Por isso, a ausência de uma posição mais forte por parte do jogador Neymar foi algo que realmente me incomodou. Foi uma atitude covarde e, talvez, interesseira. Sabe que um dia vai jogar na Europa e quer, desde já, tirar o dele da reta.

Eles tiveram uma boa educação, com um pai presente. Então não corro esse risco.

Essa foi a declaração do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) ao programa “CQC” na  Band, desta segunda 28 de março, quando questionado sobre o que o faria se tivesse um filho gay. Em novembro do ano passado, em entrevista ao “Participação Popular”, programa da TV Câmara, o mesmo deputado discutia a “Lei da Palmada”:

O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro, ele muda o comportamento dele. Olha, eu vejo muita gente por aí dizendo: ainda bem que eu levei umas palmadas, meu pai me ensinou a ser homem.

Diferente da questão étnica, a homossexualidade ainda é, infelizmente, um tabu. Ainda mais quando se referem – erroneamente – todo o tempo como “opção sexual”. É o cúmulo da ignorância acreditar que alguém escolhe ser gay e que isso dependa diretamente da educação familiar. Infelizmente, diferente do racismo, a homofobia encontra amparo em muitas das religiões, gerando um ciclo de intolerância e desinformação: Por um lado, ataca-se religiosos, que escondem-se em suas doutrinas para destilar o veneno do preconceito. Por outro, os ignorantes que realmente acreditam que homossexualismo é uma coisa abominável, já que foi vista até como doença por associações psiquiátricas pelo mundo.

Na edição 207 da revista Superinteressante, dezembro de 2004, Carmita Abdo, responsável pelo Projeto de Sexualidade da USP disse o seguinte:

Mais importante que considerar a homossexualidade um problema psicológico, passível de ser tratado, é educar a população para respeitar as individualidades. Diferenças não são escolhas, e sim tendências que fazem parte da natureza da pessoas.

Não é tendência as pessoas tornarem-se homossexuais. A tendência é que as pessoas exponham suas realidades e sintam orgulho disso. O lado bom de toda essa polêmica é poder perceber que as pessoas evoluem, já que mostraram-se indignadas, estão debatendo e exigindo justiça.

Portanto, “deputado” Bolsonaro e “torcedores” racistas, é preciso que, desde já, vocês nasçam de novo. Porque mentalidades nocivas e desprezíveis como as de vocês são a síntese do retrocesso. Saibam que vocês não nos representam e precisam, agora mesmo, procurar um psiquiatra. 

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8 pensamentos sobre “Racismo, Intolerância e conformismo

  1. A fala de Bolsonaro é um alerta para todos que defendem a Democracia. Estejamos atentos, pq ele não está sozinho no seu raciocínio tacanho!
    Sou, como a maioria dos baianos, mestiço, e não concordo com NADA do que ele falou. Mas acho IMPORTANTE OUVIR! É uma LUZ DE ALERTA! É mais fácil se prevenir contra o INIMIGO quando ele é DECLARADO! Fica claro que eles ainda sonham com o poder da época da ditadura!
    Que fale o que bem entenda, mas que sofra as consequencias do que diz! Não à censura, sempre! Mas com punição a quem comete crimes! Ele tem todo direito de dizer o que pensa. Mas se ultrapassa todos os limites legais, morais e do bom senso, que sofra a FORÇA DA LEI!
    Ele ofende a qualquer pessoa digna. MAS ELE E SEUS PARES SE COLOCAM ACIMA DO BEM E DO MAL! Herdeiros do maldito golpe de 64!
    Vê só como ainda corremos sérios riscos: http://youpode.com.br/?p=3502
    http://luizmullerpt.wordpress.com/2011/03/28/saudosistas-da-ditadura-celebram-o-golpe-de-1964-via-aldeia-gaulesa/
    O MONSTRO ainda vive, e, pelo que vemos, ainda está dando crias! Isso foi escrito por mim em 10/10/2010 e mostra a minha visão sobre esses filhotes do monstro: http://marquinhovalladares.blogspot.com/2010/10/desabafo-de-domingo.html

  2. Promeiro quero dizer que o artigo é excelente. Em segundo lugar que não sabia que você era descendente. E em terceiro lugar que toda minha luta é para que pessoas como Neymar não se coloquem na posição de omissos quando o assunto vem a tona.
    Parto do princípio que não deveríamos ser identificados por cor, pois para mim soa como se me separassem em lotes.
    Outra bandeira que levanto é a de que não sejamos tão enfáticos a propor tais e tais coisas para determinada cor. Soa para mim como se eu não tivesse as mesmas condições intelectuais dos outros.
    E este assunto é deverás muito complicado. Tentei levantar esta bandeira no passado. Hoje até não falo muito sobre.

    Artigo super explicativo.

    Beijos!

    • Sim, meu falecido avô era negro. No entanto, eu tenho a pele clara.

      Por isso eu sou contra as cotas. Acho que elas tem efeito contrário à proposta. Separando a população em “minorias”, gera uma certa exclusão social. O que fazer com o branco pobre, por exemplo?

  3. As cotas são necessárias para fazer o povo pensar e enxergar sua própria história. Sou branco, descendente de alemães. Mas o óbvio esta escrito em todos os indicadores. Os negros eram uma minoria infima nas universidades. Entre os que evadem das escolas antes de terminar o ensino fundamental, a grande maioria são negros e entre os pobres, a grande maioria são negros. Há quem pense que cotas sociais resolveriam o problema. Não. Por que entre os pobres, são os negros os mais pobres. O preconceito racial esta introjetado na sociedade. Assim como também esta introjetada esta idéia da “opção sexual”. Precisa agir de forma dura contra todo e qualquer tipo de discriminação. E as cotas ajudam nisto, por que ajudam a ver que há um problema. E o papel do estado é justamente para dirimir os problemas entre os cidadãos. Até a década de 60 0s negros americanos não tinham os mesmos direitos dos brancos. Foi introduzindo as cotas que os negros americanos passaram a ser cidadãos de verdade, não por que os brancos passam a aceitar melhor, mas por que os negros tem sua autoestima elevada e passam a compreender que não são inferiores aos brancos, como lhes ensinam (ou ensinavam) os livros didaticos que até a pouco tempo atrás não traziam uma figura de gente negra sequer. Quando o Marco antônio fala em “minoria”, há que se dizer que entre a população brasileira, os afrodescendentes são maioria e não minoria, mas quando se trata de ocupar espaços, cargos, empregos, vagas em universidades, etc… são minoria, e bota minoria nisto. Isto é errado. Mas acontece. E tem que acabar. E uma das formas para acabar, é justamente as políticas de cotas, por que esta conversa de que todo mundo é igual, serve apenas para instalar a idéia de que todo o diferente não tem lugar entre estes que são iguais. Tem um texto no meu blog sobre o tema: Igualmente diferentes ou diferentemente iguais? O link esta aqui http://luizmullerpt.wordpress.com/2009/05/23/hello-world/

    Abraços

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