Gosto

Eu gosto que você não ligue que eu fume
Eu gosto não ter datas especiais
Gostei quando você me ligou à tarde
O dia tinha começado tão ruim

Eu gosto que você não erre meu nome
Quando você ri de coisas minhas tão banais
Eu gosto do seu medo de compromisso
Talvez eu tenha medo de me apaixonar

Mas se o seu dedo der um nó com o meu
Não se preocupe se a cabeça der também
Quando a sua mão se juntar à minha
Não precisa pensar em mais nada.

Eu gosto quando você me esquece e some
E volta cheia de absurdos pra contar
Me pego rindo de algumas fotos nossas
E penso às vezes no meu medo de gostar

Eu gosto do som que sai do seu nome
Mais ainda dos desencontros casuais
Eu gosto de não me preocupar com isso
Só desculpe por eu não saber mentir…

medo do escuro

O espelho mal preso balança à parede, formando seus ângulos em três ou quatro encruzilhadas. Procuro meu rosto e não vejo nada.

você diz que eu sou isso, aquilo, o que for
quem sabe você tenha razão
eu me busco no espelho
às vezes vejo um abismo quando me esqueço
o que penso de mim.

às vezes eu sou isso, outras vezes não
quando você erra, tem sempre razão
você diz que eu sou água
quando eu quero ser sol.
sua palavra é faca; sua voz, trovão
a chuva vem vindo, talvez falte luz

e eu me lembro – pelo menos isso
e isso ninguém pode desdizer
por mais que oscile e se apague a TV
não tenho medo do escuro.

amor social

Não me dê flores
a não ser as de plástico
sobre meu corpo
não consume seu coito
seu sorriso frequente
é um desperdício.

Não me dê rosas
muito menos as vermelhas
guarde bem a saudade
e o que der na telha
seu amor me deixa
à beira do precipício

Então me atire pedras!
pois sou só vaidade
sou manso e faceiro
sou indigno, poeta
amor em cativeiro
inseguro e babaca
sou a mão no vespeiro

veja bem, essa tal modernidade
se a última moda é curtir, compartilhar
perdoe meu ego grande
de prender o que sinto
num só lugar.

ironia fina

a barba crescendo
a franja caindo
o bolinho inglês
olha a minha comida
prove da minha bebida
essa festa que eu fui

nem tudo é chorume
nem tudo é recalque
a imensidão do mar
essa falsa alegria
ninguém mais se importa
viva e deixe viver

Vê se para de bater cartão
em firma que não é a sua
se não quer comigo andar
tente atravessar a rua.

pelo olho do cego
vive batendo o martelo
a injustiça acabou…
o cachorro perdido
o cantor esquecido
é tudo falta de amor

ou você é reaça
se não é petralha
seu time é freguês
eu mudo meu nome
troco meu telefone
um pequeno burguês

“nada contra, inclusive tenho amigos que sou…”

língua morta

chutei o chinelo pra baixo da cama
– pega pra mim?
o travesseiro vazio me entorta
até que a sorte me sorria
o amor é uma língua morta.

ei, pera lá capitão!
vê o mar, o que você vê?
está vendo outro país?
mundo novo está lá, vê?
o amor pode estar em qualquer lugar

marinheiro

é doce morrer no mar, Bahia?
o medo não pode nunca impedir
pra que segurar o que já partiu?
doce é criar motivo pra sorrir

amargo é morrer na praia
empurra teu barco pro mar
as mágoas que carregas
afogam até sabendo nadar

marinheiro sabe quando a chuva aperta
toca o leme, como quando se toca o peito
marinheiro até naufraga se ele reza
sabe que vive assim pra navegar.

ato falho

Corte suas asas agora
corte sua fala agora
corte seu cabelo agora.

Sou um ato falho
Errando antes de tentar
um piano, veja que som lindo
ouviria,
se não tivesse que carregar
será que depende de nós
viver a própria vida?

Anjo caído, letras borradas de café
poeta maldito, conselheiro da ralé
o passado sem futuro, olhar perdido
de quem quer e ainda não deu no pé

não quero sua voz baixa
seu conselho, não quero
sua vida, seu piano, não
carrego mais o peso do seu
consciente, do sub, submundo
minha ralé, pois não quero
nem mesmo mais um gole de café.