E chega mais um verão, estação dita a mais esperada do ano. Como se fosse fazer alguma diferença aos cariocas, que deleitam-se ao sol e ao som das ondas e balas perdidas. Quase um grande filme, com fantasias, sensações diversas e às vezes finais pouco felizes.

O verão aqui coincide com o fim do ano, época de férias para alguns, razoável oportunidade de ganhar algum dinheiro em serviços temporários para muitos. E mais uma estação de hipocrisia, como todas as outras do ano, apesar de esta em questão ser maquiada pelo “espírito natalino” que passeia por dezembro, quando sobra um altruísmo repentino e as madames distribuem presentes aos miseráveis, sem fazer questão, no entanto, do contato físico como ato de gratidão. Sair bem na coluna social dos jornais já é o bastante. Acaba o campeonato brasileiro de futebol, que, pelo menos para mim, é uma grande oportunidade de ignorar a grande merda em que o Presidente Lula declarou estarmos vivendo. E, ao invés de cairmos na real, sempre conseguem um jeito de distrair nosso povo. Sobram shows nas praias, ensaios das escolas de samba lotados de novos famosos e jogadores de futebol, um grande atrativo para que a classe média sinta-se, por alguns momentos, parte de uma cultura que não lhes pertence. Apenas fazem questão de implorar sorrisos reluzentes para registrar em seus orkuts.

Enquanto durante a maior parte do ano, as comunidades carentes esforçam-se para montar um belo desfile para suas escolas de samba, ao som dos lamentos que embelezam nosso samba tradicional, e eventualmente (ou nem tão eventual assim) das balas – sempre elas – dos mais diversos calibres, que partem de tantos lugares e não se descobre nunca de quem é a culpa.
Os desfiles, hoje muitas vezes patrocinados por grandes empresas, por estados federativos e até outros países, que tiram grande parte da graça e tradição do nosso carnaval, são preparados por mãos negras calejadas, colando adereços e ensaiando os sambas-enredo, hoje tão padronizados, que nem mesmo as lindas baterias conseguem mais causar tanto impacto. Há quanto tempo um samba não entra para a história?

Ao fim das preparações, os verdadeiros artistas dão lugar aos queridinhos da mídia. Aquela da novela das sete, com seu silicone e cabelo loiro em camadas ocupa o lugar que até então pertencia àquela moça da comunidade, que carrega no sangue toda aquela riqueza como herança. Sem medo de ser feliz, traduzia em passos – hoje tão imitados – a cadência, a emoção e até a sexualidade das furiosas batucadas.
Vão me dizer que isso é uma democracia, que tem espaço para todo mundo, desde os famosos aos pobres favelados. Como se eu fosse algum imbecil para crer nisso. Quantos dos queridinhos visitaram o barracão da escola durante o ano? Ou bebeu uma cerveja no pé do morro rodeado de todo tipo de talento, desde belas vozes, excelentes compositores e ritmistas um tanto competentes? Cansei de presenciar humilhações dos agora “empresários” das escolas de samba, ao excluir os verdadeiros artistas desse espetáculo, em prol da exposição aos turistas e à transmissão da emissora de TV mais famosa do país.

Antes do carnaval, tem o “réveillon”. Uma palavra de origem francesa que nada mais é que a celebração do começo de um novo ano no calendário cristão. É quando as pessoas vestem-se de branco para pedir uma paz que durante todo o ano não ofereceram a ninguém. Ou de vermelho, que dizem, podem trazer um grande amor, do qual abdicou em função de tantos interesses particulares. É a celebração das promessas que não serão cumpridas, como dos políticos em horário eleitoral. Dizem que cada cor tem um significado diferente, e os tarólogos e ciganos já estão de plantão nas folhas de jornal e páginas de internet para ditar até que acessórios usar na festa e o que se pode esperar do ano que está por vir.

Por que eu não consigo ficar iludido assim? Queria ostentar um sorriso de verdadeira esperança. Queria continuar a sonhar com o futuro. Mas eu continuo cometendo os mesmos erros, ano após ano. Eu, que gosto tanto de ajudar a quem precisa – e ajuda não se resume a dinheiro – não consigo sequer ajudar a mim mesmo. Se mais pessoas se ajudassem talvez haveria alguma harmonia e uma força maior para ir em busca de um futuro menos sombrio. Evitaria tantos fracassos grandiosos, que vão arruinando progressivamente todas as formas de vida, desde que ocupamos este planeta. E sigo pensando, o que seria do ontem se não houvesse hoje e talvez o amanhã? Quanto melhor fizermos hoje, mais boas recordações teremos; o futuro, que dizem ser tão imprevisível, poderia ao menos ser um pouco otimista.

Enquanto a chuva não passa
o frio da solidão me abraça
me protegendo da dor
que deve ser viver sorrindo
como num sonho tão lindo
para depois morrer de amor

quem não ama não sente saudade
se ilude com a felicidade
de ser livre do adeus
eu já não sei mais se é verdade
se é pretensão ou só vontade
insegurança ou vaidade
mas não quero envelhecer sozinho
quero um abraço quentinho
e beijinhos somente meus

A face colore em rubores
afagos de rosa e jasmim
sabiás em meio às flores
cantando amores sem fim

Meu peito esquece as dores
quando tenho você em mim
a brisa ventilando calores
na paixão cor de carmim

Entre prazeres e torpores
nada mais se mostra ruim
minha alma agradece os sabores
que a vida reservou para mim.

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